sábado, 15 de outubro de 2016

Causa e efeito


A chuva era forte, as bocas de lobo não davam conta de escoar a água da Avenida Principal, era como se o dia do juízo tivesse chegado à cidade de Terra Santa, porém nada mais era que o puro descaso da administração local, pensava Dolores.

A capa de chuva ensopada não foi suficiente para proteger a moça, o aguaceiro não deu trégua, mas Dolores estava decidida. Em uma combinação eclética escolheu o vestido de cetim preto e uma meia 7/8 que por um defeito na fivela da liga, teimava escorregar pelas coxas... o scarpin de salto agulha escolhido a dedo já foi visto em cena como arma de oportunidade em uma briga com o antigo namorado “homem atrevido eu pego pelo pescoço e só me toma se conseguir escapar”, gargalhava Dolores entre pensamentos desconexos.

Apertou o passo, respiração ofegante pela pressa, um bloqueio no peito e os lábios gelaram por alguns segundos, fez uma pausa e deixou passar o leve mal estar, o corpo era gelado mas o sangue era tão quente quanto as intenções.  Logo chegou ao bar, era quinta feira, o estabelecimento não estava em seu ápice, mas a ambientação cativava pela luz tênue. Buscou um lugar junto ao balcão e fitou o bartender... os cinco segundos derradeiros simulavam uma dúvida que nunca houve em alguém que sabe exatamente o que quer.

Com o indicador Dolores fez sinal para que o rapaz se aproximasse e falou ao seu ouvido “o que você sugere para uma habitante de Terra Santa que talvez não honre o nome da cidade?” O bartender estremeceu e antes que pudesse responder, a moça pediu que ele trouxesse o drink conforme sua intuição. 

Aproveitou para checar o espaço, com o canto do olhar observava os homens, alguns na casa dos 30 retribuíam o olhar e acenavam com a cabeça. O momento de distração foi cortado pela chegada do drink, uma taça de absinto “sabia que você não iria me decepcionar” o bartender sorriu em tom de cumplicidade enquanto Dolores lambeu levemente a borda da taça antes de dar o primeiro gole... “já pensou se tem veneno?”, perguntou o rapaz.  “Se tiver, quero que fique com uma lembrança minha antes de eu morrer”. 

Ela contornou o balcão e pegou as mãos do rapaz guiando-as abaixo do seu vestido e sutilmente tirou sua calcinha. O bartender transtornado tentava controlar as sensações e Dolores foi saindo discretamente do local. “O que a gente começa, a gente termina”, protestou o rapaz, mal sabia ele que Dolores não finalizava seus “experimentos”, gostava de varar a noite, atormentando o psicológico de uns e atiçando os ímpetos e desejos de outros. “O que vale é a intenção e o seu poder de alcance, me excita ser a doutora dos anseios de outrem, aprisionar suas vontades em minhas mãos, não há poder maior”, gabava-se.

A moça voltava para casa, resolveu ir a pé, queria demorar, degustar as emoções daqueles que tinha nas mãos, fazia um replay mental de todas as reações, o brilho nos olhos, a respiração e o estremecimento de quem tem seus instintos provocados. “Eu gosto de ver eles encurralados, buscando respostas, implorando pelo ato, mas tudo depende de mim... é delicioso ser voyeur do impulso masculino... hahaha!”

Dolores chegou ao saguão de seu prédio com algumas bolhas de sangue nos pés, tomada pelos pensamentos do trajeto não notou os machucados. O corredor era escuro e silencioso “de que adianta pagar essa porra de condomínio se o Sidney não troca essas lâmpadas, velho filho da puta!” . Tateando no escuro a moça conseguiu encontrar a porta de seu apartamento e girou a chave na fechadura, um arrepio lhe percorreu a espinha “está aberta...”

Mesmo com receio, ela decidiu entrar, ao fechar a porta um homem a segurou pelos braços prensando-a contra a parede “Gostou do drink, vagabunda?!” Dolores identificou imediatamente a voz do bartender e quando pensou em gritar, ele tapou sua boca. “Agora eu vou te ensinar que o ato é muito melhor que a intenção, os caras da cidade já conhecem a tua fama de fazer joguinhos, mas comigo você vai descobrir o que é trepar de verdade”. Uma sensação de pavor tomou conta da moça, ela havia perdido tudo, o controle sobre seu território, sobre seu corpo, mas acima de tudo, perdeu o controle sobre o poder que achava ter sobre os outros. O homem molhou os dedos com saliva e penetrou Dolores, ela sentiu-se estranha, não era mais espectadora, mas a presa do jogo dele, os papeis se inverteram e nada mais poderia ser feito.

Ao terminar o bartender jogou Dolores na parede, a moça se desequilibrou e caiu no chão. Um misto de ódio e culpa passaram pela mente dela pois o controle... o controle que ela tanto almejava ter havia se dissipado. O homem serviu um copo de vinho que encontrou na estante da sala enquanto olhava a garota com tom irônico “um dia da caça, outro do caçador hahaha!”
Enquanto o bartender entrava no banheiro, Dolores aproveitou o momento de distração e adicionou veneno de rato à bebida, ao retornar, o homem dedicou um brinde à “conquista” e entornou o conteúdo em apenas um gole. Passados alguns minutos, o bartender caiu se contorcendo, a última coisa que ouviu foi a voz de Dolores:

 “já pensou se tem veneno?”

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Desconexo



Em um único dia, sob três formas de amar, houveram tantos desencontros que me senti nua de sentimentos.

Dentro de uma sala com cinco conhecidos, senti a ausência de todos eles, pois de certa forma refletia na minha.

Eu os via mas não enxergava. Não nos conectamos. Saí de lá como se nunca tivesse entrado.

Tão logo veio à mente uma lembrança de igual melancolia, quando me mostrei presente a alguém ausente. Não seria como percorrer uma rua sem saída, mas sim cair em um buraco sem fundo, estender a mão a quem mostra-se indiferente ao toque. Desprovido de sentidos...

- Não se apresente. Diz ele, virando as costas para o contato.

A terceira chance perdi, devido à minha inabilidade em lidar com aquilo que sempre quis ter...

Voltava de trem e dentre todos aqueles desconhecidos, uma presença amistosa me avistou.

Me olhava como se me visse, me enxergava como se possuísse o dom da visão em meio à cegueira social.

Não perguntei seu nome, nem de onde vinha.

Quando parti, me disse:

- Bom regresso.


Regressei, incompleta daquilo que desejava e não soube alcançar.

domingo, 24 de abril de 2016

Na quitanda



- Moço, me vê uma maçã bem vermelha!

- É pra feitiço, dona?

- Ãmm... não

- E essas fitas coloridas pra fora da sua bolsa?

- É pra amarrar o cabelo.

- E esse par de alianças ali no cantinho?

- Sou madrinha de casamento, é para o casal.

- E esse papel de seda vermelho?

- Vou forrar meu porta-jóias.

- E aquele...

- Ora! Pra que tanta pergunta, criatura?!

- É que pensei que fosse pra feitiço... neste caso eu ia recomendar este pote de mel, que traz a pessoa rastejando aos seus pés.


- Moço, por favor, me veja dois potes deste mel, lembrei que preciso fazer um bolo.

Visitando a 6ª casa do zodíaco



Sempre me dei bem com pessoas do signo de virgem. Seja em amizades ou relacionamentos, o fato é que a pseudo-frieza identificada neles pelo consenso geral, nada mais é do que um entendimento camuflado perante às atitudes dos outros.

É possível chegar a um virginiano e dizer: sou um necrófilo. Pois bem... ele dirá: “apenas não leve cadáveres para dentro de casa, mas se isso for realmente necessário, que seja um óbito de no máximo dois dias e por gentileza, não deixe fluidos no tapete” e continua tomando sua xícara de chá.

Simples, ele é um compreensivo inveterado, um estimulador de demências, adora surtos de criatividade. Nada soa estranho para a sua análise.

Como um cirurgião minucioso, o virginiano aprecia os ciclos naturais, o desenrolar dos fatos conforme a personalidade de cada um, sem julgamentos precipitados. Ao se sentir contrariado, no máximo ele ri. E como ri!

Seu deboche é despretensioso, não se sinta privilegiado se ele te fizer de anedota da vez, ele é tão incisivo na tiração de sarro que tu ri junto como se não fosse o personagem da piada. 

Teve um amigo meu que resolveu zoar comigo no trabalho. Ele começou a me filmar, segurou minha mão e forjou um tapa na fuça dele. Resultado: o carinha editou e fez um curta de suspense. Fiquei conhecida por meses como a desequilibrada e assustadora “menininha do corredor”. O trabalho dele ficou bom, Samara Morgan não teria feito melhor (espero conseguir ocultar este detalhe do Linkedin kkkkkkk).

A maioria dos virginianos tem manias, são rotinas e rituais cumpridos à risca, o que é muito engraçado porque eles vão à loucura caso sejam sabotados em seus “passos específicos”, mas logo caem no riso, te abraçando e prometendo vingança (e ela virá, meu caro).

Conviver com essa gente e desfrutar de sua amizade, não tem preço. A coisa vai além de se sentir à vontade consigo mesmo. Correr o risco de ser caçoado pelo outro não traz nenhum tipo de receio, é até divertido quando ocorre.


É por isso que digo, levar a vida com a praticidade de um virginiano às vezes faz bem. E tenho dito!