sexta-feira, 29 de abril de 2016

Desconexo



Em um único dia, sob três formas de amar, houveram tantos desencontros que me senti nua de sentimentos.

Dentro de uma sala com cinco conhecidos, senti a ausência de todos eles, pois de certa forma refletia na minha.

Eu os via mas não enxergava. Não nos conectamos. Saí de lá como se nunca tivesse entrado.

Tão logo veio à mente uma lembrança de igual melancolia, quando me mostrei presente a alguém ausente. Não seria como percorrer uma rua sem saída, mas sim cair em um buraco sem fundo, estender a mão a quem mostra-se indiferente ao toque. Desprovido de sentidos...

- Não se apresente. Diz ele, virando as costas para o contato.

A terceira chance perdi, devido à minha inabilidade em lidar com aquilo que sempre quis ter...

Voltava de trem e dentre todos aqueles desconhecidos, uma presença amistosa me avistou.

Me olhava como se me visse, me enxergava como se possuísse o dom da visão em meio à cegueira social.

Não perguntei seu nome, nem de onde vinha.

Quando parti, me disse:

- Bom regresso.


Regressei, incompleta daquilo que desejava e não soube alcançar.

domingo, 24 de abril de 2016

Na quitanda



- Moço, me vê uma maçã bem vermelha!

- É pra feitiço, dona?

- Ãmm... não

- E essas fitas coloridas pra fora da sua bolsa?

- É pra amarrar o cabelo.

- E esse par de alianças ali no cantinho?

- Sou madrinha de casamento, é para o casal.

- E esse papel de seda vermelho?

- Vou forrar meu porta-jóias.

- E aquele...

- Ora! Pra que tanta pergunta, criatura?!

- É que pensei que fosse pra feitiço... neste caso eu ia recomendar este pote de mel, que traz a pessoa rastejando aos seus pés.


- Moço, por favor, me veja dois potes deste mel, lembrei que preciso fazer um bolo.

Visitando a 6ª casa do zodíaco



Sempre me dei bem com pessoas do signo de virgem. Seja em amizades ou relacionamentos, o fato é que a pseudo-frieza identificada neles pelo consenso geral, nada mais é do que um entendimento camuflado perante às atitudes dos outros.

É possível chegar a um virginiano e dizer: sou um necrófilo. Pois bem... ele dirá: “apenas não leve cadáveres para dentro de casa, mas se isso for realmente necessário, que seja um óbito de no máximo dois dias e por gentileza, não deixe fluidos no tapete” e continua tomando sua xícara de chá.

Simples, ele é um compreensivo inveterado, um estimulador de demências, adora surtos de criatividade. Nada soa estranho para a sua análise.

Como um cirurgião minucioso, o virginiano aprecia os ciclos naturais, o desenrolar dos fatos conforme a personalidade de cada um, sem julgamentos precipitados. Ao se sentir contrariado, no máximo ele ri. E como ri!

Seu deboche é despretensioso, não se sinta privilegiado se ele te fizer de anedota da vez, ele é tão incisivo na tiração de sarro que tu ri junto como se não fosse o personagem da piada. 

Teve um amigo meu que resolveu zoar comigo no trabalho. Ele começou a me filmar, segurou minha mão e forjou um tapa na fuça dele. Resultado: o carinha editou e fez um curta de suspense. Fiquei conhecida por meses como a desequilibrada e assustadora “menininha do corredor”. O trabalho dele ficou bom, Samara Morgan não teria feito melhor (espero conseguir ocultar este detalhe do Linkedin kkkkkkk).

A maioria dos virginianos tem manias, são rotinas e rituais cumpridos à risca, o que é muito engraçado porque eles vão à loucura caso sejam sabotados em seus “passos específicos”, mas logo caem no riso, te abraçando e prometendo vingança (e ela virá, meu caro).

Conviver com essa gente e desfrutar de sua amizade, não tem preço. A coisa vai além de se sentir à vontade consigo mesmo. Correr o risco de ser caçoado pelo outro não traz nenhum tipo de receio, é até divertido quando ocorre.


É por isso que digo, levar a vida com a praticidade de um virginiano às vezes faz bem. E tenho dito!